Wednesday, May 03, 2006

Os mistérios do jornalismo "digital"

A principal entidade responsável pela organização da vinda de Henry Kissinger a Portugal é o "Diário Digital".

Estranha forma esta de fazer jornalismo... Veja-se, por exemplo, o que os arquivos deste órgão de Comunicação Social digital guardam a propósito de Kissinger. Esta, por exemplo, é uma notícia publicada a 7 de Dezembro de 2001:

"Os documentos oficiais dos Arquivos de Segurança Nacional revelam de forma contundente que Gerald Ford e o então secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, foram informados pelo próprio Suharto das suas intenções horas antes da invasão. É que o ex-mandatário indonésio, sugere o texto, esteve em contacto com a Casa Branca a 6 de Dezembro de 1975, a véspera da operação".

E o "Diário Digital" ainda insistiu no tratamento noticioso do tema quando, no mesmo dia, tentou obter uma reacção da embaixada norte-americana em Lisboa:

"A Embaixada dos EUA em Lisboa escusou-se na sexta-feira a comentar a notícia sobre a conivência dos Estados Unidos na invasão de Timor-Leste pela Indonésia em 1975.
Segundo adiantou fonte da Embaixada ao Diário Digital, nem o encarregado de negócios, nem o conselheiro de imprensa se mostraram disponíveis para comentar esta notícia, uma vez que o embaixador se encontra nos EUA.
Os documentos desclassificados na quinta-feira pelos Arquivos de Segurança Nacional revelam que quer o então presidente Gerald Ford, quer o seu secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, foram informados pelo próprio presidente indonésio Suharto das intenções de Jacarta em relação a Timor-Leste horas antes da invasão".


Passados cinco anos, os jornalistas do "Diário Digital" parece que se "esqueceram" do que escreveram, pois no texto de apresentação da vinda de Henry Kissinger ao almoço que organizam já não nos dizem que ele foi um dos responsáveis pela desgraça do povo timorense.

Não. Ele agora é o "Nobel da Paz de 1973":

"Henry Kissinger é o orador do 8º almoço-conferência Diário Digital
O antigo secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger é o convidado do oitavo almoço-conferência organizado pelo Diário Digital, agendado para 12 de Maio em Lisboa.
Kissinger foi o responsável máximo pela diplomacia norte-americana entre 1973 e 1977, durante os mandatos de Richard Nixon e Gerald Ford como presidentes dos Estados Unidos.
Kissinger foi distinguido com o Nobel da Paz em 1973, juntamente com o ministro dos Negócios Estrangeiros vietnamita, Le Duc Tho, pelo acordo que pôs fim à guerra do Vietname. Adepto da realpolitik, Kissinger foi um dos principais defensores da política de détente, que se traduziu no desanuviar das tensões entre Washington e Moscovo".


Que ironia! Logo no ano em que este "homem de Paz" ganhou o nobel, também autorizou o golpe de Estado a 11 de Setembro no Chile, dando assim início à ditadura sangrenta de Pinochet.

Será que alguém lhe vai perguntar isto?!...

Henry que ser ou então enriquecer...



Eu vou! Estarei lá anónimo, triste por não poder falar, mais triste ainda por não haver quem queira falar por mim!...

Sunday, March 05, 2006

As razões pelas quais Henry Kissinger não deveria ser bem-vindo a Portugal!



O antigo secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger foi convidado para ser orador num almoço-conferência agendado para o dia 12 de Maio de 2006, em Lisboa.

Os organizadores do evento cometem um erro se não anularem esse convite, uma vez que Henry Kissinger é contestado e perseguido judicialmente em países com os quais Portugal tem laços diplomáticos e de amizade.

Não podemos apagar o passado e limpar o papel que Henry Kissinger teve na recente história de Timor-Leste. Este país foi invadido em 1975 por tropas indonésias quando ainda estava sob domínio português e factos históricos hoje tornados públicos demonstraram que Henry Kissinger, então secretário de Estado do presidente Gerald Ford, autorizara a manobra militar dos indonésios contra Portugal.

Não pode ser agora “bem-vindo!”

Kissinger chegará a Portugal apresentado como o prémio Nobel da Paz de 1973, fruto dos acordos de cessar-fogo no Vietname alcançados em Paris. O que não informam é que Kissinger ajudou a boicotar as negociações para Paz no Vietname em 1968 que estavam então a ser levadas a cabo pelo presidente democrata Johnson, de modo a poder garantir a vitória eleitoral do candidato republicano, Richard Nixon.

Sem esquecer ainda que este “prémio Nobel da Paz de 1973” é igualmente o principal responsável pelo mais atroz atentado à Paz no mundo nesse mesmo ano, por ter sido um dos principais apoiantes das acções militares no Chile, a 11 de Setembro de 1973, que provocaram a morte do democraticamente eleito presidente Salvador Allende a instaurou a ditadura chilena de Pinochet.

Não pode ser bem-vindo entre nós!

As recentes investigações sobre Camarate, levadas a cabo no parlamento português, demonstraram que, 15 dias antes da morte do primeiro-ministro Sá Carneiro e ministro da Defesa, Amaro da Costa, Henry Kissinger – que então apesar de não representar qualquer entidade oficial – deslocou-se a Portugal para pedir ao nosso ministro da Defesa que vendessemos armas ao Irão, país com o qual os EUA tinham um diferendo devido à detenção de 52 reféns norte-americanos.

Adelino Amaro da Costa estava contra este negócio, contudo morreu dias depois na queda do avião onde seguia com o primeiro-ministro Sá Carneiro. As circunstâncias trágicas dessa morte e as dúvidas que ainda hoje existem em relação a um atentado é razão suficiente para dizermos:

“Senhor Kissinger, não é bem-vindo a Portugal!”

Ele é perseguido judicialmente na França.
A 31 de Maio de 2001, Henry Kissinger literalmente fugiu de França quando um juiz o quis questionar sobre “Operação Condor” na América do Sul e ainda sobre a morte de cidadãos franceses durante o golpe militar no Chile.

Kissinger ainda tem de responder a perguntas de um juiz chileno sobre o desaparecimento do jornalista Charles Horman durante o golpe militar de 1973.

Na Argentina ainda aguardam as respostas de Kissinger em relação à “Operação Condor”.

No dia 10 de Setembro de 2001, véspera dos atentados terroristas nos EUA, os filhos do general chileno René Schneider acusaram Henry Kissinger de estar por detrás da morte do seu pai. Schneider era apoiante de Salvador Allende e recusara-se a apoiar um golpe militar contra o regime, pelo que foi eliminado fisicamente. O caso ainda está pendente.

No Brasil, numa altura em que estava prevista a visita de Kissinger, o governo anulou o convite devido ao facto de não poder garantir a sua imunidade judicial.

Em Portugal deveria ocorrer o mesmo.

Deixe o seu comentário neste blog. Mande e-mails a pedir que seja reconsiderado este convite para:

diario.digital@mail.telepac.pt

Peça aos amigos que façam o mesmo até 12 de Maio.
Os organizadores do evento ainda podem reconsiderar o convite, porém caso nada disto funcione, não deixe de se manifestar contra a presença de Henry Kissinger em Portugal no dia e no local do almoço.

Kissinger não pode ser bem-vindo a Portugal.

Não merecemos essa vergonha caso tal venha a suceder.